Sábado, 14 de Maio de 2011

 

Os pilares que sustentam o milagre de Fátima custaram a ser firmados pela Igreja. O poder do Povo, foi a principal razão pela qual o milagre passou a ter lugar oficial na instituição. Por várias vezes a mesma tentou regular as emoções de forma pragmática, para que o cerne do dogma cristão não fosse violado. Na inviabilidade de convencer os fiéis a não se auto-flagelarem, fizeram-se caminhos menos castigadores para os pagadores de promessas. Pelo menos evitaria que os joelhos ficassem facilmente ensanguentados. A Igreja não tentará mais persuadir os fiéis a deixarem a tradição que eles próprios criaram, porque é preferível um pequeno desvio de fé que grande desvio do rebanho.

 

Hoje, deparo-me com imagens de cegueira teológica e histerismo pagão que pouco ou nada deveriam ter ver com cristianismo, pelo menos do pós-inquisição. Imagens de uma Sexta-feira 13 passada em Fátima durante as celebrações do aniversário da aparição. Uma auréola em torno do Sol captada pelos telemóveis passou a ser a mais comum forma de milagre da região. Fiéis de cabeça erguida davam notícias nos mesmos telemóveis com emocionados relatos: "Oh Mila, está a acontecer um milagre tão grande". "Um milagre!!! Um milagre!!!" gritavam outros de palmas das mãos viradas para o céu. "Bendito seja o Senhor" acrescentavam outros de lágrimas nos olhos num aplauso que se estendeu à multidão.

 

A comunidade científica rapidamente identificou o dito fenómeno. Trata-se do reflexo da luz em pequenos cristais de gelo suspensos na atmosfera, frequente em dias de céu limpo e com as nuvens muito altas.

 

De pouco valeu! A resposta do dito Povo não tardou: "E ia acontecer logo hoje... se eu moro aqui já há 15 anos e nunca tal vi!"

 

É isto que o outro chamava de "ópio do povo", mas na verdade isto nada tem a ver com religião. Isto é mais halloween... Deus me perdõe! 

 


 

Nota: Em 1506 deu-se um "fenómeno" idêntico no Largo de São Domingos. Um cristão-novo contestou o milagre e seguiu-se uma matança. Felizmente ninguém contestou em Fátima. Ainda que não tivessem destino idêntico, evitaram-se pelo menos cenas pouco-cristãs.



publicado por Marco Moreira às 21:42
 
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